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É possível reconhecer sinais de autismo em um bebê? Sim! Especialistas explicam o que devemos observar

04/04/2025 às 16:43

Muito se fala sobre diagnósticos tardios de autismo. Há casos em que a pessoa chega até a meia idade sem sequer desconfiar que tenha o transtorno, apesar de sentir-se diferente dos demais. No entanto, o que poucos sabem é que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode se manifestar ainda em bebês, e reconhecer esses sinais nos primeiros meses de vida ajuda a garantir um acompanhamento especializado.

Os sinais de autismo em bebês podem variar de intensidade, e aparecer em diferentes momentos do desenvolvimento. No entanto, há comportamentos específicos que podem indicar a necessidade de uma avaliação profissional. Alguns bebês podem ter um atraso na aquisição de habilidades motoras, enquanto outros podem ter dificuldades iniciais de comunicação. Alguns ainda apresentam atrasos no desenvolvimento motor.

De acordo com o psicólogo especialista em TEA e sócio-diretor da Academia do Autismo, Dr. Fábio Coelho, alguns estudos sugerem que sinais de autismo podem ser detectados já a partir dos 3 meses de idade. No entanto, é mais comum que esses sinais se tornem mais evidentes entre 12 e 24 meses.

Segundo o especialista, normalmente, os pais e cuidadores próximos são os primeiros a notarem os sinais do espectro, uma vez que convivem diariamente com a criança e podem observar comportamentos atípicos em comparação com outras crianças da mesma idade.

“Tipicamente, os bebês desenvolvem o contato visual como uma forma de interação social primária. Além disso, eles começam a reconhecer e responder a sons familiares, seja virando a cabeça, demonstrando curiosidade, ou se assustando. A ausência ou a raridade disso pode indicar dificuldades em estabelecer laços, demonstrando que ele não está engajando da maneira esperada”, diz o especialista.

A psicóloga Daniela Landim, coordenadora da Versania Cuidado Infantil, em São Paulo, reforça a importância de ficar atento a essa ausência de interação. “Os bebês já fazem contato visual, procuram o olhar para interação, tem o riso social. Então, a gente faz uma gracinha, o bebê sorri de volta. Se ele não fizer isso, já é um sinal de alerta.”

Segundo a psicóloga, outro fator que os pais devem observar é se a criança aponta. No início do desenvolvimento, apontar para pessoas e objetos é algo esperado. A falta dessa ação pode também ser um sinal de autismo e precisa ser investigado.

Outros sinais de autismo que podem ser notados em bebês

Seletividade alimentar

Quando se trata de alimentação, os pais também precisam ficar atentos. “É normal a criança rejeitar certos alimentos, mas se ela apresentar alta seletividade e aceitar somente comidas específicas, pode ser um traço de autismo. Landim alerta também para qualquer atraso, seja ele motor, cognitivo, na fala e entre outros. “Esses sinais indicam que está na hora de buscar ajuda profissional para detectar se é autismo ou não”, explica Daniela Landim.

Resposta limitada ou nenhuma resposta ao seu nome

Aos 6 meses, a maioria dos bebês demonstra consciência de seus próprios nomes, especialmente quando falados por suas mães. No entanto, bebês que mais tarde desenvolvem TEA podem não reagir quando chamados pelo nome, mostrar expressões faciais limitadas ou parecer indiferentes ao ambiente.

Reagir exageradamente a algum som

A hipersensibilidade auditiva é uma característica comum no TEA e pode se manifestar como desconforto extremo ou choro intenso diante de barulhos altos, inesperados ou até mesmo sons cotidianos.

Atraso no desenvolvimento motor

A criança pode apresentar dificuldades em fazer coisas que outras da mesma idade normalmente conseguem fazer, como segurar objetos ou se mover, como rolar, sentar, engatinhar ou andar. Alguns bebês e crianças podem demonstrar falta de interesse em explorar o ambiente ao seu redor ou evitar atividades que envolvam coordenação motora.

Atraso na comunicação

Embora bebês e crianças comecem a falar em idades diferentes, naqueles com autismo pode haver uma demora no balbucio ou na expressão de sons comuns para a idade. Além disso, pesquisas mostram que crianças autistas geralmente entendem menos palavras do que crianças com desenvolvimento não autista aos 12 meses.

Quando procurar ajuda profissional?

De acordo com Daniela Landim, em qualquer idade, se os pais notarem que o bebê parou de ter progresso na aprendizagem ou perdeu alguma habilidade que já havia adquirido, o que é conhecido como autismo regressivo, é importante investigar o caso.

Os especialistas reforçam que esses sinais devem ser vistos como orientações iniciais, e não como diagnósticos definitivos. “Nada disso é regra porque cada pessoa é única e, dessa maneira, o que se manifesta em uma pessoa não necessariamente se manifestará em outra”, comenta Dr. Fábio Coelho.

Entretanto, os especialistas destacam a importância da detecção precoce, o que permite que intervenções sejam iniciadas desde cedo, potencializando o desenvolvimento e a qualidade de vida.

De acordo com Landim, caso uma criança manifeste qualquer uma dessas características, o protocolo é buscar médicos que estejam familiarizados com o TEA. “Neuropediatras, psiquiatria infantil e pediatras geralmente são capazes de identificar o transtorno e dar um diagnóstico certeiro. O diagnóstico precoce pode fazer muita diferença na vida de uma pessoa atípica, uma vez que desde cedo o acompanhamento pode ser iniciado”, ressalta a psicóloga.

Coelho complementa dizendo que quanto mais cedo a criança receber suporte adequado, maiores são as chances de ela desenvolver habilidades sociais, comunicativas e cognitivas. “Intervenções precoces podem melhorar significativamente a qualidade de vida da criança e de sua família”, diz.

Como lidar com o autismo

Transtorno do Espectro Autista (TEA), não é uma doença, trata-se de uma forma diferente de desenvolvimento. Conforme definido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico Quinta Edição da Associação Psiquiátrica Americana (DSM 5), o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento associado a sintomas que incluem “déficits persistentes na comunicação social e interação social em múltiplos contextos” e “padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades”.

A psicóloga Daniela Landim explica que, ao receber o diagnóstico de TEA de um filho ou ente querido, a primeira reação, geralmente, é a incerteza. “Por ser um transtorno ainda, um pouco conhecido, muitos pais apresentam preocupações em relação ao futuro dos filhos”.

A especialista afirma que, em um primeiro momento, é sempre difícil tranquilizar os pais, mas que felizmente o Brasil é um país que vem evoluindo muito no quesito de tratamento e conhecimento. “É importante entender que ter um filho atípico, não necessariamente diz algo sobre o seu futuro. O pensamento de que o diagnóstico acaba com a vida do seu filho e com a sua deve ser substituído por uma busca de começar a entender o que é o autismo e como fazer o melhor para a criança,” enfatiza.

Entre os tratamentos comprovados cientificamente, a intervenção ABA é uma das abordagens mais utilizadas, focando no desenvolvimento e aquisição de habilidades. Com o método, as crianças aprendem a realizar tarefas e a se tornarem independentes por meio de técnicas como observação, estímulo e reforço. Esse processo educativo valoriza a repetição, a consolidação do conhecimento e o aprimoramento de habilidades.

Outra abordagem é a Integração Sensorial, que busca ajudar indivíduos com autismo que apresentam dificuldades de processamento sensorial, ou seja, dificuldades em reagir adequadamente a estímulos como sons, luzes e toques.

Já a fonoaudiologia trabalha para melhorar a comunicação verbal e vocal, ajudando no desenvolvimento da fala e linguagem. “Essas intervenções, muitas vezes usadas em conjunto, visam melhorar a comunicação, o comportamento e a integração social das pessoas autistas”, diz a psicóloga.

Abril Azul

Abril Azul é o Mês de Conscientização do Autismo.

Fonte: Catraca Livre