Notícias

Marcelo Urtado destaca importância da agricultura regenerativa para o futuro do Cerrado
01/09/2026 às 09:14
O Rádio Comunidade desta segunda-feira (31) recebeu o engenheiro agrônomo, cafeicultor e presidente do Cerrado das Águas, Marcelo Urtado, para uma conversa sobre agricultura regenerativa, conservação do solo, preservação da biodiversidade, gestão sustentável da água e os desafios enfrentados pela cafeicultura diante das mudanças climáticas.
Durante a entrevista, Marcelo Urtado destacou a realização do fórum “Regeneração Territorial: Conectando Sistemas Produtivos no Cerrado”, realizado nos dias 1º e 2 de setembro, no Espaço Cerrado, em Patrocínio. O evento reuniu produtores, órgãos públicos, pesquisadores, instituições, representantes da indústria, torrefadores e exportadores com o objetivo de discutir, de forma conjunta, soluções e estratégias para o futuro da região.
Segundo Marcelo Urtado, a proposta do fórum é promover a conexão entre diferentes setores da cadeia produtiva, já que, para ele, o trabalho conjunto proporciona resultados mais eficientes do que ações realizadas de maneira isolada. Ele também comemorou a grande procura pelo evento, que já apresentava alta adesão.
Na entrevista, Marcelo contou sobre sua trajetória na adoção de práticas regenerativas na Fazenda Três Meninas. Segundo ele, o trabalho começou antes mesmo de o conceito de agricultura regenerativa ganhar força, tendo como base conhecimentos relacionados ao uso e à conservação do solo.
Ele explicou que manter o solo coberto, utilizar plantas de cobertura e promover a arborização são algumas das estratégias que ajudam a evitar a erosão, aumentar a matéria orgânica, melhorar a atividade biológica e aumentar a capacidade de retenção de água no solo.
Marcelo Urtado também destacou a importância de enxergar a propriedade rural como um sistema integrado. De acordo com ele, práticas relacionadas à fertilidade, conservação do solo, controle de pragas e doenças, arborização e disponibilidade de água precisam ser analisadas de maneira conjunta.
Outro assunto abordado foi o custo da transição para uma agricultura regenerativa. Marcelo explicou que, na Fazenda Três Meninas, o processo de transição levou cerca de cinco anos. Durante esse período, houve aumento dos custos de produção, seguido posteriormente por uma redução. Ele ressaltou, porém, que os resultados podem variar de acordo com a realidade de cada propriedade.
As mudanças climáticas e a disponibilidade de água também foram temas de destaque. Marcelo Urtado explicou que o Cerrado das Águas surgiu há mais de 10 anos a partir da preocupação com os impactos que a redução da disponibilidade hídrica poderia causar na produção de café e no abastecimento humano.
Segundo ele, independentemente da discussão sobre os termos utilizados para definir as alterações climáticas, os produtores já enfrentam períodos de seca, temperaturas elevadas e perdas de floradas. Diante desse cenário, a adoção de práticas de conservação pode contribuir para tornar as propriedades mais preparadas e resilientes.
Marcelo também falou sobre o crescimento da agricultura regenerativa no Cerrado Mineiro. De acordo com ele, a região já possui milhares de hectares certificados dentro de práticas regenerativas, com produtores de Patrocínio, Monte Carmelo e outras cidades avançando nesse modelo de produção.
Durante a entrevista, ele destacou ainda a valorização do café produzido de maneira sustentável e citou a illycaffè como exemplo de empresa que passou a comercializar mundialmente um café regenerativo produzido na região do Cerrado Mineiro.
Para Marcelo Urtado, a adoção dessas práticas pode proporcionar benefícios ambientais e produtivos e, ao mesmo tempo, contribuir para a agregação de valor ao café. Ele ressaltou que produtores que conseguem apresentar resultados relacionados à sustentabilidade e à qualidade podem conquistar melhores oportunidades no mercado.
A participação dos jovens e das mulheres na cafeicultura também foi abordada. Marcelo destacou que os produtores mais jovens costumam apresentar maior abertura para novas práticas e ressaltou a importância da presença feminina na gestão das propriedades, especialmente em áreas como sustentabilidade, organização, qualidade e administração.
Sobre o papel do Cerrado das Águas, Marcelo explicou que a entidade trabalha para aproximar a produção agrícola da preservação ambiental. Segundo ele, é possível produzir e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação do bioma.
O presidente também destacou um levantamento realizado pelo Cerrado das Águas em aproximadamente 55 municípios da região do Cerrado Mineiro, envolvendo cerca de 2 mil propriedades e 180 mil hectares. O trabalho considera áreas de preservação permanente, áreas agrícolas e regiões degradadas, permitindo identificar onde as ações de conservação e recuperação devem ser priorizadas.
Além da cafeicultura, o Cerrado das Águas vem ampliando sua atuação para outras atividades, como pastagens, pecuária e soja, com o objetivo de avançar gradualmente na construção de um modelo de produção mais sustentável em diferentes setores.
Ao final da entrevista, Marcelo Urtado explicou como os produtores interessados podem participar das ações do Cerrado das Águas. Segundo ele, a participação dos produtores é gratuita. O primeiro passo é entrar em contato com a entidade por meio do site ou das redes sociais. Depois, é realizada uma conversa para conhecer a realidade da propriedade e, posteriormente, uma visita para definir, em conjunto com o produtor, as primeiras ações.
Marcelo ressaltou que o produtor não precisa implementar todas as práticas de uma só vez. A orientação é começar de forma gradual, testar as técnicas na própria propriedade, acompanhar os resultados e ampliar as ações conforme os avanços.
Segundo ele, o processo é acompanhado por indicadores ao longo dos anos e envolve um compromisso inicial de pelo menos três anos. Marcelo destacou ainda que algumas práticas podem apresentar resultados rapidamente, enquanto outras exigem mais tempo para demonstrar seus efeitos.
Ao encerrar, Marcelo Urtado reforçou a importância de começar o processo o quanto antes, mas sempre de maneira responsável e gradual. Para ele, o produtor deve testar, acompanhar os resultados e ampliar as práticas aos poucos, respeitando as características de cada propriedade.
